SambaTalks T09E14 com Yuri Fernandes, CDO e CTO da ArcelorMittal Brasil
Olhe ao seu redor agora. O prédio onde você está tem aço na estrutura. Seu carro, sua geladeira, o fone no seu ouvido, todos carregam metal que provavelmente saiu de uma usina siderúrgica. O aço é tão onipresente que se torna invisível, um material que sustenta o mundo moderno sem que ninguém pare para pensar nele.
E, no imaginário coletivo, siderurgia é o retrato da indústria que não muda. Pesada, tradicional, feita de fornos gigantescos e processos que parecem os mesmos há um século. É o tipo de negócio que muita gente usa como desculpa: "no meu setor não dá para inovar, é tudo muito pesado, muito regulado". Yuri Fernandes ouve esse discurso e não compra uma linha dele.
No novo episódio do SambaTalks, Gustavo Caetano e Pedro Filizzola recebem Yuri Fernandes, CDO e CTO da ArcelorMittal Brasil, a segunda maior produtora de aço do mundo. A conversa passa por como encontrar onde inovar num negócio pesado, pela tecnologia que salva vidas no chão de fábrica, pela recusa a fazer "IA por IA", pela cultura de segurança que molda o ritmo da experimentação, e pela visão de um futuro em que as áreas de negócio criam seus próprios softwares sem depender da TI.
Yuri não é um especialista em aço, e considera isso uma vantagem. Veio do mercado bancário, da consultoria, da distribuição de combustíveis, sempre de setores altamente regulados, e chegou à ArcelorMittal há cerca de um ano para liderar um time de dados, analytics e experiência. Ele conta que a primeira coisa que fez não foi impor fórmulas de fora, mas ouvir quem tinha mais tempo de casa, porque ninguém entende os problemas do mundo real como quem convive com eles. Foi cruzando essa realidade com uma bagagem diversa que ele começou a inovar num terreno onde poucos apostariam.
Para saber onde inovar, siga o dinheiro
O primeiro princípio que Yuri desenvolve é uma bússola simples para não desperdiçar energia. Gerar valor significa seguir onde está o dinheiro. Parece óbvio, mas a aplicação numa siderúrgica contraria a intuição.
Quando o Gustavo comenta que a inovação numa indústria do aço não nasce no alto forno, Yuri discorda com elegância. O dinheiro, ele explica, está em dois lugares. Um deles são os processos "portão para fora", vendas, logística, compra de sucata, onde hoje se concentra 90% da sua agenda, porque é ali que o valor circula e onde errar custa menos. O outro é dentro da própria produção, nos insumos e na eficiência energética do maquinário, onde prever quanto se vai gastar de energia muda diretamente o resultado do dia.
Gerar valor é seguir onde está o dinheiro. Numa siderúrgica, ele está nos insumos e na melhor operação do maquinário de produção de aço.
O alto forno, que parece o lugar menos "digital" da empresa, tem milhares de variáveis por trás e comporta muita inteligência analítica. A lição transferível é que a inovação não deve ir para onde é mais fácil ou mais bonita, e sim para onde o valor se move. Em qualquer negócio, seguir o dinheiro é o filtro que separa o esforço que importa da distração.
A tecnologia que salva vidas no chão de fábrica
Antes de qualquer conversa sobre eficiência, Yuri crava a prioridade número um da ArcelorMittal: segurança, e segurança de gente. Uma indústria pesada é um ambiente de risco de vida real, e é aí que a tecnologia ganha um papel que vai muito além da planilha.
O exemplo mais forte é a visão computacional. Câmeras com inteligência embarcada monitoram o ambiente de produção e identificam movimentos que fogem do padrão, disparando um alarme para parar a máquina antes que um acidente aconteça. O mesmo olhar detecta desvios de procedimento, alguém sem equipamento de proteção, uma regra de ouro quebrada, e já classifica a gravidade e dispara o alerta ao gestor com um chamado para ação.
No fim do dia, é a tecnologia salvando vidas.
O mesmo tipo de tecnologia rende também em outra frente concreta: combate à fraude. Na compra de sucata, que é o maior custo de uma siderurgia, a inteligência nas câmeras faz uma pré-classificação das impurezas, o que impacta diretamente o custo. E na entrada da fábrica, o sistema lê a placa do caminhão, verifica cadastro e evita fraudes como a de declarar mais eixos do que o veículo tem para receber um frete maior. É o que Yuri chama de cost avoidance, valor que não aparece como receita, mas que se preserva ao evitar perdas.
Comece pequeno, com as apostas certas
Como provar que "testar rápido e errar rápido" faz sentido numa indústria que não pode parar? A resposta de Yuri é o oposto de espalhar esforço. Não faça muita coisa. Faça uma, e cuide muito bem dela.
Em vez de lançar dez iniciativas para aumentar a chance de alguma dar certo, ele escolheu duas apostas certeiras e as executou com cuidado. E não foram escolhas aleatórias: seguiram o dinheiro. Uma no time comercial, onde estão as vendas, e outra na compra de insumo metálico, o maior custo da operação. Uma mais digital, a outra fortemente baseada em analytics e machine learning para tomada de decisão. Em ambas, as pessoas rapidamente começaram a ver valor e passaram de espectadoras a participantes da construção.
Faça uma escolha certa. Você não precisa fazer muita coisa. Escolha uma, mas aquela que você vai cuidar muito bem.
Por trás disso, Yuri lista três ingredientes que tornaram a virada possível: um sponsorship forte, no caso o alinhamento direto com o CEO; executivos abertos à mudança, porque no fim tudo é gestão de gente; e a disciplina de escolher poucos alvos certos. Uma vitória clara convence a organização inteira a embarcar na próxima, e é assim que a cultura de experimentar se instala, não por decreto, mas por prova.
Fale de problema, não de solução
Um dos mantras que Yuri repete na ArcelorMittal é uma inversão de hábito. As pessoas correm para a solução; ele obriga todo mundo a voltar para o problema. É comum alguém chegar pedindo "uma inteligência artificial para tal coisa", e a resposta dele é sempre a mesma pergunta: qual problema isso resolve?
Me fala qual é o problema, que a gente pensa na melhor solução. Nem tudo é IA.
Essa disciplina tem uma consequência direta sobre o que vira projeto. Na ArcelorMittal, uma iniciativa só avança se responder a duas perguntas: que problema ela resolve e que oportunidade ela captura. As metas de maior peso de Yuri estão amarradas à contribuição no EBITDA da companhia, medida com rigor junto à controladoria, e ele estima que 70% a 80% delas falam de retorno financeiro. Tecnologia que não se conecta a um resultado do negócio vira "TI para TI", e isso ele não aceita. Os 20% a 30% restantes cuidam de cibersegurança e evolução tecnológica, o alicerce que garante que o EBITDA prometido se sustente ao longo dos anos, não só neste.
O futuro: quando o negócio não precisar mais da TI para criar
No fecho, uma provocação que resume para onde Yuri acredita que tudo caminha. Perguntado se as áreas de negócio um dia criarão seus próprios softwares, com vibe coding, sem passar pela tecnologia, ele é categórico: seria um fracasso se, no futuro, elas ainda dependessem da TI para isso.
E não é teoria. Os product managers do time dele já criam protótipos avançados, prontos para uso na nuvem, sozinhos. O papel da tecnologia muda de executora para facilitadora: em vez de construir cada solução, ela define os guardrails de segurança, os padrões e a arquitetura que permitem que qualquer pessoa crie sem colocar o negócio em risco. Yuri conta que a área já opera com mais de vinte agentes de IA cuidando justamente de verificar se o que se cria está dentro do padrão, e corrigindo quando não está.
Para mim, seria um fracasso se as áreas ainda precisassem de tecnologia para isso no futuro.
Mas ele faz uma ressalva importante, que separa o entusiasmo da irresponsabilidade. Nada disso funciona sem um alicerce robusto. Uma governança de IA sólida, uma base de dados bem organizada, uma camada semântica que permita correlacionar informação com contexto. Sem esse fundamento, diz Yuri, uma empresa só consegue fazer pilotos pequenos, e piloto pequeno não é o que a ArcelorMittal quer. A liberdade da ponta depende da solidez da base.
O que fica do episódio
A conversa com Yuri desmonta, com exemplos concretos, a ideia de que indústria pesada e inovação não combinam. Ele lidera dados e tecnologia numa das maiores siderúrgicas do mundo e mostra que o obstáculo nunca é o setor, é a mentalidade.
O episódio deixa três coisas para quem lidera. Para o estrategista, a bússola do siga o dinheiro, que aponta onde inovar em vez de espalhar esforço pelo que é mais fácil ou mais vistoso. Para quem quer implantar mudança numa estrutura grande, a receita de começar pequeno com as apostas certas, provando valor antes de escalar. E para todos, o mantra de falar de problema, não de solução, porque nem tudo é IA, e a tecnologia só importa quando resolve algo real. Como Yuri resume no fim: não existe espaço para vitimismo, existe espaço para protagonismo, em qualquer setor.
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