SambaTalks T09E16 com Eduardo Cavalcanti, Digital Content Director do Grupo Ser Educacional
Um adolescente assiste a uma série em velocidade 2x. Ouve um podcast em 3x. Faz uma pergunta no YouTube e para no primeiro resultado que aparece. Essa é a pessoa que, em algum momento, vai abrir uma plataforma de estudo e esperar a mesma fluidez, a mesma rapidez, a mesma experiência sob medida que tem em tudo o mais. E se não encontrar, volta para o celular.
É contra esse comportamento que a educação precisa competir hoje, e quase ninguém formula o problema assim. A disputa não é mais entre uma escola e outra. É entre o curso que a pessoa poderia fazer e os minutos que ela gasta rolando o feed. Entender isso muda tudo: a forma de produzir conteúdo, de medir aprendizado, de usar tecnologia a favor de quem estuda em vez de perdê-lo para quem disputa a mesma atenção.
No novo episódio do SambaTalks, Gustavo Caetano e Pedro Filizzola recebem Eduardo Cavalcanti, Digital Content Director da GoKursos e do Grupo Ser Educacional, um dos maiores grupos de educação do país, com mais de 300 mil alunos. A conversa percorre a transformação de um setor conservador em uma operação de mídia e tecnologia, o novo papel do professor, o uso de IA do atendimento à sala de aula e as habilidades que seguirão sendo humanas num mundo cada vez mais automatizado.
Eduardo é um ponto de encontro de dois mundos: o da televisão e o da educação. Jornalista de formação, com pós-graduação na área de educação, dirigiu programas de TV ao mesmo tempo em que dava aula, e carrega há mais de vinte anos uma convicção que atravessa toda a conversa. Para ele, ensinar não é passar conhecimento de um lado para o outro, é troca: quem ensina também aprende, quem aprende também ensina. Entrou no Grupo Ser Educacional como professor há quase vinte anos e hoje lidera a vertical de conteúdo digital, que inclui a GoKursos, braço de educação livre com mais de doze mil cursos próprios.
A maior concorrente da educação é o tempo de tela
O ponto de partida da conversa é uma reformulação do próprio conceito de concorrência. Eduardo credita a ideia ao vice-presidente do grupo, Joaldo Diniz, e ela desarma a intuição de qualquer gestor.
A grande concorrência da educação hoje não é outra empresa de educação, é o tempo de tela. O tempo que o usuário passa no celular, na rede social, é tempo em que ele deixa de fazer um curso.
A pessoa chega à educação já moldada por outras experiências digitais. Está acostumada à fluidez de um streaming e à conveniência de um aplicativo de transporte, e espera o mesmo da plataforma onde vai estudar. Se a educação oferece menos que isso, perde.
Por isso o Grupo Ser Educacional passou a tratar conteúdo com a lógica de uma empresa de mídia: trocou o vídeo longo pelo formato que chama de One Page Report, uma página única que combina texto, PDF, conteúdo interativo e vídeos curtos de três a cinco minutos, intercalados com quizzes que exigem a participação do aluno. A playlist deixou de ser passiva e virou interativa, feita para garantir que a pessoa está de fato acompanhando.
O professor deixou de ser a fonte do conhecimento
Se todo o conteúdo está disponível no YouTube, num livro, numa IA, o que resta ao professor? Eduardo responde com uma virada que considera definitiva. O conhecimento está acessível para todos; o papel do professor mudou de dono da informação para guia do caminho.
Ele ilustra o risco de um aprendizado sem mediação com um experimento que seus próprios alunos fizeram. Uma turma da manhã criou um blog com a resposta errada para uma pergunta que ele faria à noite, e preparou o SEO da página para que ela aparecesse no topo das buscas. Na turma da noite, 80% dos alunos erraram a resposta, porque buscaram, encontraram o primeiro resultado e pararam nele. É a demonstração de que acesso à informação não é o mesmo que acesso ao conhecimento correto.
O professor não é mais a fonte do conhecimento. Ele é o mentor, o guia que mostra o caminho e a trilha que você vai seguir.
É nesse ponto que entram a curadoria e a educação de qualidade. Num mar de conteúdo em que há muita coisa boa e muita coisa ruim, o valor está em quem separa uma da outra e conduz o aluno pela trilha certa, em vez de deixá-lo à mercê do primeiro link.
IA em quase tudo, com o humano na palavra final
Quando o assunto vira inteligência artificial, Eduardo deixa claro que não se trata de um experimento recente. O grupo testa IA desde a época do IBM Watson, quando eram necessárias duzentas horas de treinamento para render cinco horas de aula, um processo que ele mesmo classifica como improdutivo. A disposição de testar tudo, mesmo o que não funciona, é o que permitiu chegar ao uso atual.
Hoje a gente tem IA em absolutamente tudo. Mas o principal desafio é educar as pessoas a fazer um bom uso dela.
Na prática, o grupo chega a usar oito ou nove IAs diferentes, cada uma na função em que é melhor, do atendimento ao marketing, da negociação financeira à geração de conteúdo de apoio. O exemplo mais concreto é um processo de faturamento que levava dez dias e dezenas de pessoas e hoje se resolve em poucas horas com duas, com os analistas realocados para tarefas que de fato exigem análise humana.
Mas há uma regra que não se quebra: quando a IA entra num processo de validação do que o aluno fez, ela não dá a palavra final; o professor ou o tutor dá. Eduardo também alerta para riscos reais, como o uso da mesma IA que o professor usa para criar questões sendo usada pelo aluno para descobri-las, e a manipulação de correções por instruções escondidas no texto, o chamado prompt injection.
Por que o tutor de IA individual não basta
Num momento em que surgem escolas usando IA como tutor individual para cada aluno, Eduardo faz uma ressalva que vai contra a corrente do entusiasmo fácil. O aprendizado não acontece só no acerto, acontece também no erro e na convivência.
A IA está sendo treinada para só acertar. Ela não vai te dar a opção de seguir um caminho que não é o melhor. E muitas evoluções da sociedade nasceram justamente de um erro.
Um tutor que só olha para você, por mais eficiente que seja, tira a oportunidade de ampliar repertório aprendendo com o erro e o acerto dos outros ao redor. É quando um colega erra e o professor abre uma discussão que surge um aprendizado que a interação individual não produz. Por isso Eduardo defende o modelo de sala de aula invertida, em que o aluno pesquisa e constrói o conhecimento e o professor atua como facilitador, trazendo a bagagem de vinte ou trinta anos de experiência que nenhuma máquina tem. A tecnologia personaliza, mas a mediação humana e o convívio continuam, para ele, insubstituíveis.
As habilidades que seguirão humanas
O fechamento responde à ansiedade que todo mundo sente: o que fazer para continuar relevante quando a IA sabe mais do que a maioria das pessoas? A resposta de Eduardo separa dois tipos de habilidade. Nas hard skills, as de conhecimento, a IA ganha em velocidade: lê mil livros em segundos e sintetiza. O diferencial humano está no outro lado, nas soft skills, no relacionamento, na empatia, na criatividade, na capacidade de resolver problemas pensando também no outro.
Ele resume isso numa imagem que atribui a um diretor do LinkedIn e que vale o episódio inteiro: um fazendeiro diz ao cavalo que ele não perderá o trabalho para o trator, mas para outro cavalo que aprenda a dirigir o trator.
Você não vai perder o emprego para a IA. Vai perder para alguém que aprendeu a usá-la melhor que você.
A lição, válida para qualquer profissão, é que a tecnologia sempre criou uma régua nova, da datilografia ao computador, e nunca eliminou o profissional que se adaptou. O risco não é ser substituído pela IA, é ser substituído por quem aprendeu a usá-la. E para isso, diz Eduardo, o que move a pessoa é a curiosidade e a disposição de sair da zona de conforto, de não se agarrar ao trabalho repetitivo que, esse sim, está com os dias contados.
O que fica do episódio
A conversa com Eduardo mostra que a educação, um setor que a cultura imagina como conservador, pode ser um dos lugares mais inovadores quando decide experimentar com responsabilidade. O Grupo Ser Educacional virou, na prática, uma operação de mídia e tecnologia, com estúdios próprios, LMS próprio e IA em quase todas as frentes, sem abrir mão do humano no centro do processo.
O episódio deixa três coisas para quem lidera, em qualquer setor. A primeira é que a disputa real é por atenção, e quem produz qualquer conteúdo compete com o tempo de tela, não só com o concorrente direto. A segunda é que a tecnologia personaliza, mas não substitui a mediação humana, nem o valor do erro e da convivência no aprendizado. E a terceira é a mais universal: diante da IA, o que protege uma carreira não é o conhecimento que a máquina replica, são as soft skills e a disposição de aprender a usar a ferramenta, porque o cavalo não perde o emprego para o trator, e sim para quem aprende a dirigi-lo.
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