SambaTalks T09E08 com Kleber Coelho Paz, Diretor Comercial e de Tecnologia da Compesa
- 2 de jul.
- 5 min de leitura
Quando alguém pensa em inovação, dificilmente pensa em uma empresa pública de saneamento. O imaginário costuma ir para startups, big techs, cases de bancos digitais, laboratórios de inteligência artificial.
Mas é justamente dentro desse tipo de empresa, com missão social, regulação pesada e décadas de infraestrutura instalada, que estão sendo tomadas algumas das decisões mais interessantes sobre como conciliar tecnologia com propósito no Brasil.
No novo episódio do SambaTalks, Gustavo Caetano e Pedro Filizzola recebem Kleber Coelho Paz, Diretor Comercial e de Tecnologia da Compesa, a Companhia Pernambucana de Saneamento, para uma conversa sobre inovação em ambientes regulados, o desafio de universalizar o saneamento no Brasil, a virada de mentalidade que a TI precisa fazer para ser vista como negócio, e as oportunidades gigantes que o setor público oferece para quem sabe olhar.
Kleber tem 36 anos de Caixa Econômica Federal e quase três décadas como gestor. Foi cedido ao governo de Pernambuco em 2025, a convite da governadora, e assumiu a Compesa juntando bagagem do mundo financeiro com o desafio de modernizar uma companhia centenária de infraestrutura.
Essa mistura aparece o tempo inteiro na forma como ele fala sobre gestão pública: com a disciplina de quem operou por décadas em um ambiente regulado e a impaciência de quem sabe que dá para fazer mais e melhor.
Regulação não é desculpa para não inovar
Um dos pontos centrais do episódio é a defesa que Kleber faz de que compliance e governança não são obstáculos à inovação, e sim o ponto de partida dela.
"Considerando a regulação, considerando essa governança estruturada que a gente tem, considerando o nível de compliance que a gente precisa ter enquanto agente público, como eu posso introduzir mecanismos de inovação para que a gente aproxime cada vez mais o que acontece dentro do público com o que está acontecendo dentro do mundo?"
A pergunta que ele faz é diferente da pergunta que muita gente do setor público faz. Em vez de discutir se pode ou não inovar, Kleber discute como inovar respeitando as regras que já existem. É uma virada de chave sutil, mas que muda completamente o tom da conversa dentro de uma empresa pública. E é a partir dessa pergunta que ele começa a construir mecanismos concretos de aproximação com o ecossistema privado, sem precisar romper com nada do arcabouço regulatório que sustenta a operação.
O primeiro passo precisa partir do público
Outro ponto forte da conversa é a defesa de que a aproximação entre setor público e startups não vai acontecer de forma orgânica. Segundo Kleber, o movimento precisa ser intencional, e precisa partir do público.
"O privado dificilmente vai ter saco, paciência de ficar esperando reunião de diretoria para aprovar. Esse rito público não combina bem com os sprints que a turma das startups está acostumada."
A Compesa fica a menos de dois quilômetros do Porto Digital, um dos maiores parques tecnológicos do país. Kleber conta que a empresa está participando ativamente da Ponte, associação que congrega Softex e Assespro, com o objetivo de sentar com as empresas locais e discutir dores em comum antes mesmo de abrir editais.
É uma forma de reconhecer que, se a empresa pública quer inovar de verdade, ela precisa fazer o movimento primeiro, sem esperar que o mercado adivinhe as necessidades dela.
TI precisa se ver como negócio, não como back office
Se existe uma frase do episódio que resume a mentalidade que Kleber está tentando implantar na Compesa, é essa. Ele conta que herdou uma cultura em que a TI era vista como área de suporte, aquela que atende chamado sob demanda, e que está trabalhando ativamente para virar essa lógica de dentro para fora.
"Se o cara está dentro de uma área e se vê como back office, como área de suporte, aí começa com a filosofia errada. Sai da caverna, vai lá, senta na mesa do cara, entende as dores, vê ele fazendo, faz junto, faz pergunta e aí sim, tu volta pra caverna pra fazer o desenvolvimento daquilo que vai ajudar o cara."
Kleber chama isso de TBC, sigla que ele trouxe da experiência na Caixa e que significa, na versão que ele mesmo verbaliza, "tira a bunda da cadeira". A filosofia é simples: se você não está próximo de quem tem a dor, você não vai construir a solução certa. E se você não está construindo a solução certa, sua área não está gerando valor de verdade, está só cumprindo tarefa.
A pizza da eficiência: onde a inovação realmente mexe o ponteiro
Um dos momentos mais didáticos do episódio é quando Kleber decompõe a estrutura de custos de uma empresa de saneamento em três blocos praticamente iguais: energia elétrica, pessoal e produtos químicos. Cada um representa cerca de um terço da operação.
Como agente público, a Compesa tem margem limitada para atuar sobre pessoal. Sobra, então, energia e produtos químicos, e é justamente nesses dois blocos que a empresa concentra os investimentos em tecnologia, IoT, monitoramento e parcerias com o setor privado.
Kleber é enfático ao dizer que a Compesa é o maior cliente da Neoenergia em Pernambuco, o que dá dimensão do peso que a eficiência energética tem na última linha do balanço.
"Essa sim é uma variável que quanto mais a gente mexer nela, ela vai para a última linha. Essa sim a gente trabalha de uma forma na lupa."
A lição, para qualquer líder de tecnologia, é que inovação sem foco em ponteiro é ruído. Antes de decidir onde colocar IA, IoT ou automação, é preciso saber onde está o dinheiro. E é nesse ponto que Kleber conecta a disciplina do setor público com a agilidade do privado.
500 bilhões, 40% de perda e um mercado invisível
Talvez o dado mais forte do episódio seja o tamanho da oportunidade que o saneamento brasileiro representa. O marco legal do setor estabelece que até 2033, 99% da população precisa ter água tratada e 90% precisa ter coleta e tratamento de esgoto. Para isso, o setor vai precisar de aproximadamente 500 bilhões de reais em investimentos, sendo 35 bilhões só em Pernambuco.
E existe um problema estrutural que amplifica o tamanho dessa oportunidade: cerca de 40% da água tratada no Brasil se perde no caminho, entre problemas de tubulação e desvios intencionais. É água que foi captada, tratada com produtos químicos caros, bombeada por quilômetros com consumo pesado de energia, e que não chega na torneira. Cada ponto percentual recuperado representa retorno direto na última linha.
"Isso é dinheiro na mesa que tá indo pro ralo. Esse é o desafio de toda companhia de saneamento."
Kleber lista tecnologias que estão sendo testadas no setor globalmente, de fibra ótica dentro de tubulações a bolas inteligentes que circulam pelos dutos monitorando variações de pressão e vazão por IoT. É um ecossistema inteiro de inovação que, para quem está de fora, costuma passar completamente invisível.
O que fica do episódio
A conversa com Kleber mostra que inovação e regulação convivem melhor do que costumamos imaginar, desde que a pergunta certa esteja sendo feita. Não é sobre se dá para inovar dentro das amarras. É sobre como transformar essas amarras em disciplina de execução, e como usar essa disciplina para atrair o privado sem depender de rupturas culturais que não vão acontecer.
Se você está no setor privado achando que o público é lento demais para valer a pena, o episódio te faz reconsiderar. Se está no setor público achando que inovar é impossível dentro das regras, ele te dá um método.
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