SambaTalks T09E06 com Carlos Eduardo Boechat, Diretor de Tecnologia e Engenharia Industrial da Vale S.A
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Quando alguém fala em mineração, a imagem que vem à cabeça costuma ser a de uma operação pesada, fÃsica, distante de qualquer conversa sobre inteligência artificial ou transformação digital. Mas essa imagem já não corresponde à realidade de uma das maiores mineradoras do mundo.
No novo episódio do SambaTalks, Gustavo Caetano e Pedro Filizzola recebem Carlos Eduardo Boechat, Diretor de Tecnologia e Engenharia Industrial da Vale, para uma conversa sobre inovação na indústria, caminhões autônomos, digital twins, IA aplicada à operação e o que realmente separa projetos que geram resultado dos que ficam no papel.
Boechat tem uma trajetória incomum: passou pelo mundo corporativo, empreendeu, voltou a ser executivo e chegou à Vale com o perfil de quem já esteve dos dois lados do balcão. Ao longo do episódio, esse histórico aparece o tempo inteiro na forma como ele fala sobre decisão, risco e execução.
Inovar na gigante começa pelo problema, não pela tecnologia
Um dos momentos mais fortes do episódio acontece quando Boechat explica a lógica que orienta todos os projetos de tecnologia dentro da Vale:
Inovar começa por uma pergunta simples: qual é a dor que quero resolver?
"O que a gente incentiva e tem que trabalhar? Não partir da tecnologia pela tecnologia em si, a partir dos desafios: quais são as dores, quais são os gargalos, como isso conecta com a estratégia da empresa."
Para ele, essa distinção é o que separa empresas que conseguem extrair valor real da tecnologia das que acumulam projetos-piloto sem resultado. E dentro da Vale, essa lógica se organiza em torno de três alavancas principais: segurança, competitividade e sustentabilidade, nessa ordem.
"A gente tem a segurança como um valor inegociável para nós. A vida em primeiro lugar. Esse é o primeiro ponto de tudo."
Caminhões autônomos: escala, segurança e resultado mensurável
O exemplo mais concreto dessa lógica no episódio são os caminhões autônomos. Boechat conta que quando chegou à Vale, o programa já existia em Brucutu e em parte de Carajás, mas estava numa situação que precisava de retomada e aceleração.
A decisão de escalar o projeto partiu exatamente das três alavancas que ele descreve. Em segurança, o benefÃcio é direto: centenas de pessoas retiradas da exposição ao risco. Em produtividade, a operação autônoma gerou ganhos superiores a 10%. Em sustentabilidade, a redução no consumo de diesel chegou a 7,5%, só pela automação, sem qualquer mudança na motorização dos veÃculos.
A expansão anunciada recentemente prevê mais de 90 caminhões autônomos apenas em Serra Norte e Serra Sul. E o desafio agora, como Boechat deixa claro, é escalar nos próximos anos um volume equivalente a três ou quatro vezes tudo o que foi feito na história da empresa até aqui.
Inovação descentralizada: a lógica da franqueadora
Outro ponto relevante do episódio é a forma como a Vale estrutura sua governança de inovação. Boechat descreve um modelo descentralizado, onde todas as áreas podem e devem inovar, mas com a área de tecnologia funcionando como uma espécie de franqueadora.
"A gente brinca que é como se a gente fosse uma área franqueadora e tivesse as franquias dentro das outras áreas. É um modelo que eu acredito que ajuda a acelerar e disseminar."
Esse modelo tem uma consequência direta: a inovação não fica represada numa área especÃfica nem depende de aprovação centralizada para acontecer. Mas também exige uma governança clara, especialmente quando o assunto é inteligência artificial.
Boechat alerta para o risco do que ele chama de "shadow AI", cada área criando suas próprias soluções sem critério, gerando desperdÃcio de investimento e abrindo brechas de cibersegurança.
IA na Vale: mais de 200 casos de uso desde 2017
A Vale não é uma empresa que chegou tarde à inteligência artificial. O primeiro centro de referência em IA foi criado em 2017, e desde lá a companhia acumula mais de 200 casos de uso implementados. O quarto centro de referência técnica em IA foi inaugurado no Pará no ano passado.
No evento de Hannover, em abril de 2026, a maior feira de tecnologia industrial do mundo, com 120 mil participantes de 150 paÃses, a Vale apresentou 13 casos implementados. Nove deles envolviam inteligência artificial, cobrindo desde videoanalÃtica até agentes de IA para projetos de capital.
Mas Boechat é cuidadoso ao falar sobre o tema. Para ele, a maioria das empresas que falha na jornada de IA falha porque começa pelo lugar errado.
"Quando a gente se encanta pela tecnologia, se eu chego procurando onde eu vou colocar IA, o caminho já está errado. Eu tenho que entender a dor, o desafio, a partir daà ver qual a tecnologia, combinação de tecnologia, com ajuste de processo, gestão de mudança."
Ambidestria: o básico bem feito e a transformação ao mesmo tempo
Um dos conceitos que Boechat usa com mais frequência no episódio é o de ambidestria organizacional. Numa empresa de 84 anos com parque instalado em vários paÃses, não dá para abandonar o que existe em nome do novo. Mas também não dá para ficar parado enquanto o mundo muda.
Na prática, isso significa trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo: modernizar sistemas legados e infraestrutura obsoleta enquanto se avança na adoção de tecnologias digitais. Ter um roadmap claro, partir das dores reais das operações e construir modelos de co-liderança com outras áreas são, segundo ele, os fatores que têm feito a diferença.
"Não é fácil, não é trivial, não é à toa que muitas empresas falharam nisso. Mas a gente tem conseguido ter bastante sucesso."
O que fica do episódio
A conversa com Boechat é densa, mas nunca abstrata. A cada tema, autonomia, IA, legado, software, governança, ele volta para o mesmo ponto de partida: tecnologia só faz sentido quando conectada a uma dor real do negócio.
Já pensou em como uma empresa com tamanho legado consegue inovar em ritmo acelerado, sem abrir mão da segurança?
O episódio responde essa pergunta com exemplos concretos, números reais e a visão de quem está no centro dessa transformação todos os dias.
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